sexta-feira, 25 de abril de 2008

Medo

Pela primeira vez em minha vida estou realmente com medo de morrer. Não é medo de sair de carro e dar de cara com uma carreta, mas medo de fazer todo esse tratamento e no fim ele não dar em nada. Medo de ser operada, ficar careca, vomitar sei lá quantas vezes, sentir dor, e no fim o câncer vencer. “Ah, mas não pode pensar assim, tem de ser otimista...”, as pessoas me dizem.
Claro que os amigos, família, e até mesmo gente que nem me conhece direito quer me dar forças. Ninguém vai chegar e falar assim “olha, que droga né, imagine se você faz todo o tratamento e morre”, até mesmo porque se alguém falar isso tem de ser muito cruel ou sem noção (existe gente assim, mas graças a Deus nenhum imbecil me disse nada disso até agora).
E o medo é uma coisa que a gente não controla. Todos os dias, desde o diagnóstico, anunciado na última quarta-feira, dia 16, que minha cabeça vem girando, girando, girando... Me pego pensando em tudo que não fiz ainda na vida, em lugares que não visitei, pessoas a quem devia ter dado mais atenção, amigos com quem perdi a amizade, seja por divergências ou porque a distância nos separou, e tento visualizar se devia ter feito alguma coisa diferente.
Costumo dizer que o que eu tinha de fazer errado eu fiz na época certa, ou seja, na adolescência e na faculdade. Mas será que eu fiz realmente errado, ou apenas estava imbuída do espírito que rege a maioria dos universitários? Aí me pego pensando se meus “erros” passados é que estão se refletindo agora em minha saúde. Será que se eu tivesse sido da geração saúde isso estaria acontecendo?
Também me pego pensando em quantas pessoas erradas deixei entrar em minha vida, pessoas a quem não devia ter devotado um único pensamento, quanto mais entregado a minha amizade sem nem pensar se elas realmente mereciam a consideração que devoto aos meus amigos. E não venha ninguém me falar que isso demonstra mágoa ou ressentimento, que são os causadores do câncer. Estou apenas pensando em tempo perdido, tempo esse que hoje para mim é extremamente valioso, tanto pela urgência com que quero começar essa batalha pela minha vida quanto pelos momentos que estou aproveitando agora, antes de iniciar meu tratamento.
Mas voltando ao medo. Ele fica dentro de mim gritando para sair o tempo todo. E às vezes ele grita alto, sabe? São momentos em que, sei lá, assistindo uma propaganda, do nada, me pego com os olhos marejados e pensando que talvez eu não viva o suficiente para ver minhas sobrinhas tão amadas formadas. Talvez eu não viva o suficiente para conhecer o Egito, meu sonho desde que me entendo por gente, ou então para conhecer o grande amor da minha vida. Sim, porque eu quero um amor para a vida toda, não estou falando de um marido, mas de alguém que esteja ao meu lado, que me complete e que eu o complete.
Medo de passar os últimos dias de minha vida fazendo um tratamento que pode se revelar inútil, que vai me deixar cansada, careca, deprimida... Ao invés de estar vivendo tudo aquilo que não vivi até agora.
E esse medo ruge... Acho que pior ainda é o medo de admitir que estou com muito medo. Medo de decepcionar as pessoas que vêem em mim uma pessoa forte, cheia de vida, de garra, que encara tudo sem destemor. Tá bom, eu tenho medo de um monte de coisas, de barata, injeção, insetos, fantasmas, escuro quando estou sozinha... Mas o medo de decepcionar as pessoas é mais forte que tudo isso. E continuo então silenciando os gritos que existem dentro de mim, com um silêncio ou um sorriso quando me dizem que vou vencer tudo isso. Faço até mesmo piadas de que vou sair do hospital turbinada e sem barriga. Mas no fundo, no fundo, estou morrendo de medo...

3 comentários:

Priscilla disse...

Oi Déa,

vim pra cá assim que recebi o e-mail com o endereço - fiquei super curiosa desde que vc me leu um trecho pelo telefone! Parabéns, parabéns, parabéns pela iniciativa!
É a sua cara, sempre dar um jeito de tirar algo de bom das coisas...
Respondendo a uma pergunta que fez:SIM, VOCÊ É BOA, VOCÊ É ÓTIMA, É MARAVILHOSA... E É CORAJOSA E GUERREIRA. E tenho certeza que você já ganhou essa batalha.

PS: pra quem não entende muito do mundo moderno, até que tá se saindo bem como blogeira, hein!? Pretendo fazer um pra poder ficar bem perto durante a viagem - vc precisa me dar uns toques!

te amo muito e há muito, muito tempo. Te conheço há mais de metade da minha vida e tô aqui, ao seu lado, pro que der e vier - vamos lá, acabar com esses Orcs!

Beijos na alma, Pri

lucimara disse...

Olá querida Déa!
Sei que neste momento é natural que tenha medos, sentimentos de fraqueza, mas lembre-se que é esse medo que muitas vezes nos impulsiona para frente e nos dá coragem para vencer.
Aliás você tá realmente uma estrela no blog hein...rs
A sua personalidade é realmente de uma guerreira, lutadora e vencedora, fragilidade não combina com você.
E com certeza vencerá com tua força interior, com o apoio da família e dos verdadeiros amigos...conte com nossos pensamentos positivos e orações para ti!
Saiba que é muito querida por todos nós! Te amamos!
Que o Senhor Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo esteja sempre contigo e te mostre que ELE é o Deus do impossível!
Permaneça sempre na paz de Jesus!
Gde bjo no coração!

Lucimara e família

catita disse...

oi dea tudo bem pode deixar e ficar tranquila pq ja venceu esta batalha tb viu suas palavras são minhas tb pois vc conseguiu descrever realmente o que sentimos quando temos este pequeno probleminha viu pq nada mais nada e maior que Deus viu bjcas no seu coração epode ter certeza que estamos orando por vc ta.

CATITA SP ca de mama tb em tratamento