quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sem heroísmo, com garra

Amanhã é comemorado o Dia Mundial de Combate ao Câncer. Pode parecer que não, mas há muitos motivos a se comemorar nesse dia. As chances de cura, principalmente nos casos em que a descoberta da doença ocorre no início, têm aumentado consideravelmente nos últimos anos. A sobrevida também é maior, novos medicamentos têm sido desenvolvidos e muitas pesquisas são realizadas para que os efeitos da quimioterapia sejam minimizados e os doentes possam passar pelo tratamento sem tantos efeitos colaterais.
Quando tive câncer a primeira vez, em 2003, minhas chances eram de 90% de cura. Em 2008, na segunda, elas haviam caído para 50%. Ainda assim, consegui ficar curada de novo seis meses, contrariando prognósticos que me colocavam na cama por pelo menos um ano e meio. Fiquei durante mais nove meses fazendo cirurgias plásticas, mas da doença eu estava livre.
Acho engraçado que se criou uma imagem hoje de que o doente de câncer é um herói e enfrenta tudo com uma coragem fora do comum. Não acho que o doente de câncer seja um herói, e falo isso por mim. Lutei com muita garra para ficar curada, procurava sempre ter fé e acreditar que tudo ia acabar bem. Tentei mostrar sempre uma imagem de positivismo, até porque reclamar e me lamentar não iria resolver absolutamente, e agir assim não é do meu perfil. Teria sido muito mais fácil adotar o papel de “coitadinha” que está doente pela segunda vez, e ninguém iria me recriminar. Mas acredito que o bom humor e o alto astral ajudam a cura – claro, são coadjuvantes do tratamento, que é o mais importante de tudo. Não me vejo como heroína – até porque acho isso injusto com quem não conseguiu vencer a doença. Quer dizer que essa pessoa não batalhou como eu? Claro que não. Infelizmente, há casos sem cura, independente do quanto a pessoa lute por ela.
Também existe uma corrente que credita todo e qualquer tipo de tumor a problemas psicossomáticos, principalmente a mágoas guardadas. Ou seja, além de estar doente, a culpa é da própria pessoa, que foi incapaz de perdoar alguém. Como se ela estivesse sendo castigada, a doença vem para mostrar que é preciso mudar, ter o coração mais leve e, principalmente, saber perdoar a todos. Se isso fosse realmente verdade, como existem casos até de bebês que têm câncer? Será que uma criança de poucos meses já tem ressentimento suficiente para desenvolver essa doença terrível?
O paciente de câncer não vira santo porque teve a doença. Não passei a acordar todos os dias e achar o mundo maravilhoso e perfeito porque sobrevivi. Mudei muitos conceitos, e acredito ser uma pessoa melhor. Mas não mudei minha essência nem meus valores, e em algumas situações me tornei até uma pessoa mais intolerante. Isso não significa que não tenha aprendido nenhuma lição. A mais importante é que procuro viver todos os dias da melhor maneira possível. Posso errar, mas procuro acertar. Não virei santa nem heroína. Sou apenas alguém que sobreviveu.

3 comentários:

Lú Barros disse...

Adorei seu blog e texto.... Acabei de disponibiliza-lo no meu, com suas devidas referências!!

Inaie disse...

Infelizmente o cancer e hoje em dia, parte das nossas vidas. TODO MUNDO tem alguem proximo que tenha lutado contra a doenca, muitos casos de cura, outros sem final feliz. A verdade e que cada vez mais, essa doenca tem atacado as pessoas - as boazinhas, que perdoam tudo, as rancorosas, os novos, idosos, as mulheres e os homens...
Fico feliz por voce ter enxotado essa doenca da sua vida. parabens pela garra! E querendo ou nao, voce e muitos outros "vencedores"vao sim, ser referencia de heroismo para muitas pessoas, mas vao acima de tudo ser a luz no fim do tunel, a certeza de que vale a pena lutar e que e possivel ter um final feliz, apesar das dificuldades do caminho!!

Déa disse...

Oi querida! Obrigada pelas suas palavras! Espero sim ser referência, que as pessoas me vejam e acreditem sempre que o câncer pode ser vencido. Beijos!